- Poucas coisas na vida, ou do que conheço dela, tem este poder e uma delas é a arte e, acredite, a BARRANCA é pura arte. A arte surgida de lá, no entanto, é única, nem melhor, nem pior que qualquer outra manifestação cultural, simplesmente diferente. Há na BARRANCA um ambiente místico de tranquilidade, de poesia, de mediunidade até, diria! Acho inclusive ser a única celebração em que no mínimo 80 % dos presentes (sempre tem os que não sabem por que estão lá, com em qualquer celebração) sintonizam, comungando de um mesmo espírito de imaginação ou transe sentindo a presença dos mortos, e não falo apenas imortalidade/presença poética, falo de uma espécie de "sentir", que aliado aos aspectos objetivos da nossa cultura de fronteira realmente me afetaram.
- È tido por muitos como um carregador das baterias das entranhas gaúchas, uma ida ai "supra sumo" da nossa cultura, em termos de festivais. Longe das televisões e qualquer outro meio de comunicação de imprensa, lá se vive a vontade, sem compromisso, sem competição como é desde sua origem: Seis amigos organizados por Apparício Silva Rillo, Zé Bicca, Nico Fagundes, entre outros, que faziam uma pescaria nas barrancas do Uruguay, como normal para nós aqui, lá pelas tantas já meio tomados por certa monotonia, resolveram fazer entre eles um concurso de música. Lançaram um tema à roda e começaram a compor com suas "equipes". Desta feita saiu vencedora a composição de Nico Fagundes, Eu e o Rio, mas o mais importante foi a criação do genuinamente gaúcho, samborjense, fronteiriço, "acastellanado" e missioneiro FESTIVAL DA BARRANCA (Um verdadeiro festival, um woodstock neo-tradicionalista.) que, apesar de mais famoso e do aumento nos participantes o espírito ainda é o mesmo: O de um acampamento onde se descansa, se conversa, se mente, e conta história, se ri, se bebe, se cai, se levanta e se faz arte ou música, se alguém preferir.
- No caso da ação da BARRANCA em mim posso dizer que me fez encontrar algo que vinha buscando há tempos. Conheci muitos lugares, pessoas e, principalmente, culturas diferentes. De cada uma destas culturas eu lembro que ficava admirando traços, costumes, expressões, vestimentas, a arte, a música, a adaptação ao terreno ou a natureza onde se desenvolveu e o fruto desta integração, enfim as características do povo e seus motivos.
- À certo ponto me "dei conta" de que, obviamente, assim com todos eles eu também tinha a minha cultura, os meus costumes, as minhas origens, muito ricas por sinal, com é a nossa cultura gaúcha, porém, ainda assim não me sentia identificado com aquela figura gaúcha que anda de chapéu, canta "bagualhices", despreza a evolução dos tempos, a tecnologia, o refinamento social (no sentido das relações humanas, respeito, educação, contextualização) e principalmente a diversidade de influências/informações que o individuo/pessoa recebe no contexto gaúcho atual.
- Veja bem! Isso não quer dizer que não respeite ou que não admire este tipo "à moda antiga" que toca chamamé, usa a pilcha completa e impecável. Gosto e admiro DEMAIS os que realmente vem deste contexto de raiz, do rincão. Que se expressa pela música falando com sua "despolidez", sua linguagem, sua influência e sua informação. Já não tenho o mesmo interesse pelo que tenta falar destas coisas e como se de lá fosse, sem realmente ser.
- Porém, mesmo admirando a expressão "roots" da nossa cultura, não me sinto pessoalmente, ideologicamente, mentalmente, sonoricamente e, nem poeticamente, totalmente identificado pelo mesmo (Veja bem: Usei a palavra totalmente, ou seja, isso é sim grande parte de mim, mas não é tudo). Eles não refletem a totalidade da realidade da minha vida ou da vida do individuo médio gaúcho da minha geração.
- O individuo médio gaúcho, cuja base de tudo é o estilo gaúcho, o mate, nosso hino, nosso futebol, o amor à terra, o orgulho em cultivar os símbolos desta nação e de fazer parte dela, mas com a influência de uma parcela de cultura globalizada, conectada, comunicada, que recebe outras tipo de ritmos, de instrumentos, de vozes, de motivações, de inspirações, de ídolos. Hoje os horizontes são bem maiores do que os que tinham os antigos, até mesmo pela facilidade da comunicação e acesso a informação que se tem hoje e que não se tinha naquele tempo. Este e o ponto: Naquele tempo se falava das coisas que se conhecia e que, à esmagadora maioria das pessoas daquela época lhe era permitido conhecer. Eles eram fruto daquele contexto e, como consequência lógica, não refletem o contexto atual.
- Dentro deste conceito maior da contextualização do tradicionalismo, o que prefiro chamar provisoriamente de "neo tradicionalismo" volto a falar da minha experiência na barranca: Durante os dias do festival conheci músicos de primeiríssima qualidade, que falam das coisas do nosso Rio Grande e do nosso cotidiano que, apesar de aceitar todas as influências que já referi, estão totalmente apegados ao nosso passado, ao nosso linguajar que mescla expressões campeiras com expressões americanizadas; ao nosso pampa, às nossas instâncias, assim como às nossas cidades; que vestem bombacha e tênis Nike; que tomam mate e cerveja belga; que comem churrasco e salmão grelhado; que ouvem com fervor músicas de Telmo de Lima Freitas e de Bob Marley, do Pavarotti, dos Angueras ou dos Racionais, do Nirvana ou de Mário Bárbara, do Pink Floyd ou leopoldo Rassier, Led Zepellin ou César Passarinho, Vincius de Morais, dos Beatles, Elis Regina, enfim, acrescenta um pouco de tudo ao nosso.
- Esse e o "novo gaúcho", ou gaúcho contemporâneo. Não estamos presos ao passado e, sim, ORGULHOSAMENTE ligados a ele, mas com os olhos no horizonte, querendo conhecer de tudo, degustar de tudo experimentar coisas diferentes, mas sem esquecer da paixão por nosso DNA. No caso dos fronteiriços como eu, formado por influências missioneiras e, inegavelmente, castellanas assim como influências imperialistas (brasileiras), também inegáveis, formadoras da nossa cultura. Falando de romantismo, de sentimentalismo, de localismo, de gauchismo com erudição e do nosso jeito, mas com muita profundidade, ludicidade e conloauialidade. Uma atitude vanguardista como a assumida desde o início dos Angueras, na minha opinião, base e origem do que chamo neo-tradicionalismo.
- Por que dizer não à diversidade? Por que a resistência à inovação, ao experimento? Conhecer o diferente, pelo menos no meu caso, me fez ser muito mais apaixonado pelo que sou e pelo que me orgulho de ser.
- Na cultura que tentei descrever acima encontrei minha origem, minha raiz e até meu futuro. Na BARRANCA me encontrei.
- No link abaixo um exemplo do que estou falando representado na música apresentada por Pirisca Greco e a comparsa elétrica ou simplesmente "UNIDOS DA PORTELINHA". Com letra de Cabo Deco.
- Nas fotos escolhidas acho que está bem retratado o ambiente de harmonia, comunhão arte e romantismo que paira nos dias de BARRANCA. A parceria, o talento, o companheirismo, a harmonia.
- Na última eu e meu companheiro de fé, não só de barranca, mas da vida: Meu irmão Mateus.
PS: As fotos e os vídeos são meus.
