segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

Decifrando Paul:


Decifrando Paul:

Introdução:


- Este texto tratará da história de Paul. Com 54 anos é tranqüilo, mas com emoções sempre a flor da pele, um tanto quanto cabeça dura, mas que busca em cada situação o caminho que julga mais correto, ajudando a quem pode da maneira que lhe é possível e da maneira que lhe faz sentir-se melhor.

- Vive no extremo oeste, em uma pequena cidade às margens de um rio.

- Formou-se em direito, casou-se com um amor da infância e de sua vida: Anie. Também advogada com quem constituiu uma família com três filhos.


Paul:

Armadura da vida;


- Sempre vendo seus amigos debaixo para cima Paul acostumou-se a ter a cabeça sempre erguida e teve de desenvolver maneiras de compensar sua "defasagem" em relação à estatura média de seu meio.

- Usando uma expressão sisuda de cara fechada que na maior parte do tempo usa como casca ou como armadura de proteção, passa uma primeira impressão de que não é sujeito de muita brincadeira, parece não ser nada simpático, truculento, de fala firme, imperativa e de tom alto. Procura impor-se e conquistar o respeito por onde anda.

- Quando jovem, não foram poucas as vezes que esta procura por espaço extrapolou os limites da conversa e da discussão e acabou terminando em bofetadas. Era a forma encontrada para demonstrar sua rebeldia, sua inconformidade. Era também fruto das influências do meio onde viveu, onde as coisas realmente eram decididas assim. Era a maneira de se impor.

- Ai identifica-se outro traço importante da personalidade de Paul. Sempre que "veste a camisa" por alguma causa, que acredita em algo dá-se por completo, briga, esbraveja, discute, luta até o final com invejável garra e convicção.

- Paul sempre colocou seus princípios em primeiro lugar. Lutou com a mesma gana para mantê-los e quando julgou estarem sendo postos a prova. Passou-os à risca para seus filhos e esposa.


Vidros nos olhos;

- Desde que me lembro deste sujeito usa as lentes de um par de óculos. A armação dos óculos mudou várias vezes com o passar do tempo, porém manteve sempre o mesmo olhar por trás delas.

- Um olhar que transmite segurança, confiança. É um olhar sério e ao mesmo tempo terno e confortante. As lentes agem como se potencializassem a expressão vibrante irradiada pelos olhos.


Expressão pelas rugas;

- Nos cantos dos olhos, rugas que denunciam uma caminhada longa, cheia de percalços, mas que trouxeram experiência. De outro lado demonstram uma imensa satisfação quando, contraindo-se, sorriem mudando totalmente a expressão, desfazendo a casca e revelando seu verdadeiro caráter amistoso, amigo leal, afável, generoso, até doce.

- São as mesmas rugas que na testa se apresentam em três linhas horizontais, cortadas por duas pequenas linhas verticais, quando algo está errado, algo lhe faz perder a paciência ou lhe tira a tranqüilidade.


Vistas no horizonte;

- Caminha sempre com a cabeça levantada, queixo alto, olhando longe, com passos firmes e ar solene que reforçam idéia de segurança.

- Olhando sempre para o horizonte, nunca, jamais, olha para os lados, mas não por ser prepotente ou arrogante, apenas busca evitar alguma gafe ao não reconhecer alguém, já que sua visão é descontada por um problema no nervo óptico, herança dos truculentos tempos de juventude rebelde.


Lá vem Paul;

- Também faz parte das minhas lembranças mais remotas a respeito de Paul, um ruído de molho de chaves que carrega sempre pendurados às calças junto a alça do cinto e que ressoam no ritmo de suas passadas, sempre denunciando sua presença próxima.

- Usa deste expediente como precaução e praticidade já que não pode, de jeito nenhum, perder as chaves da casa, do trabalho, do cofre, enfim, e ainda tê-las sempre a mão quando precisar.

- Se escuto o ruído de outro molho de chaves é como se não tivesse a mesma "balada" e, ao contrário, quando ouço as chaves de Paul, não me confundo. Não tem erro! Ouço as chaves se aproximando e um golpe forte e seco no trinco da porta. É Paul, dando alguma ordem, reclamando de alguma coisa, ou apenas dando uma olhadela de pura curiosidade.

Manias, neuroses e rituais;

- Paul não pode ver luzes de aparelhos eletro-eletrônicos ligadas, como a TV que depende somente do controle remoto ou do micro-ondas quando está ligado à tomada e o "display" está aceso. Diz que é porque estão gastando energia, mas quem convive com ele sabe que e só para ver suas regras cumpridas. Uma espécie de capricho, fruto da sua personalidade.

- Ao chegar em casa, depois de um dia trabalho, calça chinelos e, caminhando lentamente, como se degustasse em cada passo o afundamento de seus pés na borracha macia do calçado, na companhia de sua inseparável esposa e também inseparável chimarrão vai "aguar" as gramas onde fica por horas relaxando, distraindo-se, "mateando", meditando. È a hora do dia em que contempla sua vida, faz o balanço de suas decisões, toma outras, planeja o futuro.

- Depois alimenta seus cachorros com quem mantém longas conversas, chamando-os de filhos, e tratando-os quase como tal, que sabe numa tentativa de diminuir a falta que sente de seus filhos que moram longe devido à circunstâncias da vida (estudos, trabalho).
- Não deixa nunca de lado um telefone, faz ligações diárias a seus três filhos, as vezes três ou quatro vezes ao dia, quer controlar cada passo de suas vidas, não como um coronel de exército, mas com a preocupação de um bom pai. Quer auxiliá-los em cada pequena decisão, buscando evitar que cometam erros que cometera no passado. Quer participar de forma concreta, curti-los, dividir as alegrias, as decepções, manter a família unida, integrada, entrosada.
- Faz declarações de amor sistemáticas a Anie, faz questão de demonstrar sua gratidão pelos 45 anos de fidelidade, companheirismo e paciência. Lhe faz afagos, elogios, reconhece seus esforços, lhe escuta.
- Pelo menos três vezes por semana atravessa a rua de sua casa para desfrutar da companhia de seus pais, que vivem logo em frente e que já estão velhinhos. Fica ali sentando ouvindo histórias repetidas, reclamações dos novos tempos, deixa escapar sorrisos tímidos, de canto de boca, demonstrando imensa satisfação ao identificar em seus pais traços de sua personalidade. Busca retomar alguma lacuna no relacionamento com eles, deixados pela maneira de criação antiga, mais distante e mais severa.

- Com a chegada dos anos algumas complicações de saúde o acometeram, passou a tomar remédios, com os quais desenvolveu uma relação de cumplicidade: "Eu tomo vocês na hora certa e vocês cuidam da minha saúde."


É possível ter duas religiões?

- Tem como sagrado os horários de jogos de seu time de futebol: Os "red´s of the South", time de um passado de glórias, da capital de seu estado e pelo qual manteve e mantém fervorosa paixão. Quando mais jovem viveu na capital e não perdia um jogo. Conta histórias incríveis das conquistas dos anos 70, dos jogadores, dos times. Usa isso como uma forma de manter-se ligado à seu pai, de quem herdou a paixão e a seus filhos homens, que cultivam igual ou maior sentimento.

- Quando os "Red´s" jogam tudo é secundário sentam-se a frente da televisão e esbravejam, torcem, sofrem, desabafam, se decepcionam, comemoram. Até choram. Mas saem de cada jogo mais unidos e mais "red´s". É como se fosse uma missa, um culto, uma religião.
- Mantém até hoje amizades de infância com os quais se relaciona com a mesma descontração, intimidade e cumplicidade. Alguns inclusive com a mesma freqüência. Faz isso como uma maneira de sentir-se bem e, nostalgicamente, manter um elo com o passado.
- Duas vezes por semana vai a um centro espírita onde busca desenvolver seu lado espiritual, talvez por medo do que possa vir ou de deixar tudo isso que dá sentido a sua vida e a seus dias. O que acontecerá depois de sua morte? Não consegue imaginar-se onde quer que seja sem sua companheira, sem seus filhos, sem seus pais, amigos...
- Assim é Paul, um sujeito rotineiro, tranquilo, normal, que vive pela sua satisfação e bem estar e pela satisfação de bem estar dos seus.
- Enfim mostra-se feliz com as coisas a vida simples que leva. Que buscou levar. Se faz feliz em cada pequeno momento, em cada passo lento, em cada rodada de mate, em cada vitória de seus filhos, em cada novo dia ao lado de Anie, em cada vez que olha para seu pátio em um fim de tarde ou amanhecer e enche os pulmões de ar, estica os braços e, espreguiçando-se, sente-se vivo, do seu jeito.
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- Ps: Este texto é fruto de uma atividade proposta na cadeira de Redação e expressão oral, minstrada pelo Prof. Dr. Gabriel Sausen Feil, da faculdade de Pub e prop. da UNIPAMPA de São Borja.
- Ps 2: Na foto "Paul" e "Anie" voltando pra casa(amarela) depois de mais um dia de trabalho> vejo nela a tanquilidade de suas vidas. O companherismo refletido nas mãos dadas. São a expressão mais próxima da felicidade que conehço na minha vida

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